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Transjardinagem

Transjardinagem diz muito da paisagem temporal em ruínas na qual se inscreve a trajetória de produção desta exposição, que é por si mesma um arquivo vivo. Desejo propor um movimento de jardinagem partindo de paisagens corporais catastróficas. O jardim-paraíso é uma das paisagens radicais da transformação corporal que proponho com o intuito de romper o pacto colonial na escrita de memórias. Caminhar, irrigar, capinar e existir em jardins-paraísos-catastróficos-tropicais. A produção de um jardim-paraíso combina, na coexistência entre presente, passado e futuro, movimentos climáticos, objetos abandonados, plantas curativas, ferramentas, horticultura multiespecífica e Transespecífica, cipós dispostos esculturalmente, caminhos que duram o tempo dos próprios passos, pederneiras, buracos, cascalhos, brotos, conchas, arbustos, troncos, rastros desenhados por humanos e mais-que-humanos, formações mágicas de pedras, e fluxos polinizadores, simbióticos ou invasivos.

TRANSJARDINAGEM

Transjardinagem diz muito da paisagem temporal em ruínas na 6 qual se inscreve a trajetória de produção desta exposição, que é por si mesma um arquivo vivo. Desejo propor um movimento de jardinagem partindo de paisagens corporais catastróficas. O jardim-paraíso é uma das paisagens radicais da transformação corporal que proponho com o intuito de romper o pacto colonial na escrita de memórias. Caminhar, irrigar, capinar e existir em jardins-paraísos-catastróficos-tropicais. A produção de um jardimparaíso combina, na coexistência entre presente, passado e futuro, movimentos climáticos, objetos abandonados, plantas curativas, ferramentas, horticultura multiespecífica e Transespecífica, cipós dispostos esculturalmente, caminhos que duram o tempo dos próprios passos, pederneiras, buracos, cascalhos, brotos, conchas, arbustos, troncos, rastros desenhados por humanos e mais-quehumanos, formações mágicas de pedras, e fluxos polinizadores, simbióticos ou invasivos. As imagens de jardins que se inscrevem sobre ruínas em regiões inóspitas foram as melhores alternativas que consegui criar como incentivos, ferramentas e alternativas à (re)escrita histórica sobre vivências corpo e gênero variantes no Brasil. Como se faz memória, partindo da catástrofe?

Uma Transjardinagem é uma jardinagem que pretende resgatar memórias das ruínas de séculos de destruição; investir em (re)escritas históricas de processos que foram apagados desde o período colonial, suprimidos pela ditadura7 brasileira em outras configurações e perduram como tentativas de extermínio até os tempos atuais; criar um arquivo brasileiro sobre História e Arte corpo e gênero diversa8 ; apresentar processos artísticos como importantes produtores corporais; valorizar memórias e produções artísticas dessas existências, que não são ainda validadas e visibilizadas em espaços de produção de conhecimento; discutir ontoepistemologias corpo e gênero diversas nas artes; fomentar novos modos de vida em paisagens em ruína; celebrar a imaginação; destruir, por vezes, o que for preciso; produzir uma ética citacional desse grupo e das pessoas desse grupo que o pesquisam é uma das ferramentas de justiça epistêmica anti colonial e de tracejo histórico das nossas vivências e produções; produzir suportes para debates sobre diversidade de gênero e suas interseccionalidades9 , como processos étnico-raciais, deficiência, classe, sexualidade, e outros; criar paisagens radicais para outros futuros.

Criei essa metodologia para utilizá-la no Arquivo Histórico do Museu Transgênero de História e Arte (MUTHA). O MUTHA é uma obra artística e uma tecnologia transformacional de formação de arquivo, que coleta estórias reais e/ou semi-ficcionais sobre pessoas corpo e gênero diversas heroínas e transcestrais, através de memórias transmitidas por variadas comunidades; apresentação de fatos históricos registrados academicamente pela cisgeneridade sobre pessoas corpo e gênero diversas heroínas e transcestrais publicados em pesquisas em periódicos científicos ou revistas de alta circulação, que precisem de (re)escrita histórica, em formas que disputem omissões, invisibilidades e destruições de arquivo, apontem equívocos e sugiram transformações; estórias transgêneras contemporâneas – e/ou estórias de suas comunidades e grupos com os quais vivem ou viveram, que se relacionem com a memória e a produção cultural corpo e gênero diversa – reais, ficcionais e semi-ficcionais; aspectos da história de pessoas corpo e gênero diversas, da suas existências e das existências de sua comunidades, como memórias sobre artistas, ativistas e outras pessoas membras de seu grupo social, vivas, falecidas ou assassinadas; aspectos da história dos movimentos político-sociais, ações coletivas e modos de vida comunitários transgêneros, registrados ou não academicamente; debates sobre História e Arte transgênera brasileira; debates em perspectivas anti-coloniais, étnico-raciais e transfeministas; destruição de arquivos de violência; exploração audiovisual de processos criativos ou obras artísticas, literárias e/ou intelectuais, criadas ou não em âmbito universitário, já apresentadas para a comunidade ou ainda inéditas. Esta exposição vem então apresentar e abrir o próprio Arquivo Histórico MUTHA, através de obras artísticas sobre memórias, coletadas através desta curadoria.

A Transjardinagem é, como a nomenclatura adianta, um processo transformacional. Ela está mais focada no processo de formação do jardim-paraíso do que no jardim em si, como resultado. Expor então as estratégias de capino, preparo do solo, escolha das plantas, plantio das sementes, seleção de mudas, irrigação e manutenção é uma estratégia política, social e econômica de propagação de sementes, uma exponenciação do arquivo. Esta exposição pretende, assim, não apresentar um produto artístico, historiográfico, genealógico, arqueológico ou narrativas fixas, mas fornecer algumas chaves de continuidade e pistas possíveis para perpetuar essa árdua tarefa de produção e manejo de um arquivo corpo e gênero diverso. E, talvez, nesse percurso, poder ensaiar perguntas: Onde estão as pessoas corpo e gênero diversas na História da Arte? Como grafar nossas memórias?

Uma Transjardinagem é um ritual de cura para criação de memórias. As obras que aqui estão produzem feitiços contra as feridas coloniais causadas pela História cisheteronormativa branca, ocidental e capaz, criando memórias resistentes à objetificação, exotificação, hipersexualização, apagamento, extermínio, camuflagem ou borramento.

Primeiro as localidades – onde plantar? Depois, no preparo do solo, é preciso que se proceda a mais importante operação: uma (re)escrita histórica como ferramenta criativa, com intuito de disputar omissões, invisibilidades e destruições de arquivo, apontando normatividades em fatos registrados pela cisgeneridade branca e sugerindo transformações. Essa proposta justifica-se pela ausência de uma historicização da cisgeneridade, como perpetuação política, social e econômica de sua hegemonia ontoepistêmica. Após o preparo do solo, temos a escolha das plantas. A escolha das plantas leva em consideração todas as variáveis até aqui tratadas, e é sempre relacional. Num jardimparaíso nada está dado antecipadamente e nenhuma dessas variáveis é independente umas das outras ou independente das teias de relações de saber e poder aos quais estão circunscritas.

É preciso que se considere igualmente a temporalidade do plantio das sementes. A coexistência entre presente, passado e futuro indica a inscrição de operações temporais de diversas ordens nos discursos: simulações, projeções, criações, reinterpretações, omissões, repetições e fluxos. Por fim, temos a seleção de mudas, irrigação e manutenção do jardim-paraíso, onde a História não é dada e onde as memórias são processos de cura para produção de seres e mundos pela transformação corporal.

COMO CITAR O MUTHA?

O MUTHA é uma obra artística e um projeto científico autoral de Ian Guimarães Habib. Por esse motivo, o MUTHA deve ser citado junto de sua autoria, a partir da seguinte obra:

HABIB, Ian Guimarães. Corpos Transformacionais: a transformação corporal nas artes da cena. São Paulo: Ed. Hucitec, 2021.