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Transespécie

Espécie é speciēs em Latim, e significa em sentido próprio “vista”, “sentido da vista”, “vista de olhos”; em sentido usual “aspecto” e “aparência” ou “forma”, “exterior” e “ar”; e em sentido figurado “beleza”, “falsa aparência”, “fantasma”, “imagem”, “aspecto”, “idéia que se faz de uma coisa” ou “tipo” (FARIA, 1962, p. 935). A palavra vem de speciō, que indica “olhar”, “ver” e “avistar” (ibidem). Dessas indicações, pode-se pensar que espécies são tentativas de atribuições de idéias e sentidos para aspectos, formas, aparências e para o que está em campos de percepção.

TRANSespécie

Espécie é species em Latim, e significa em sentido próprio “vista”, “sentido da vista”, “vista de olhos”; em sentido usual “aspecto” e “aparência” ou “forma”, “exterior” e “ar”; e em sentido figurado “beleza”, “falsa aparência”, “fantasma”, “imagem”, “aspecto”, “idéia que se faz de uma coisa” ou “tipo” (FARIA, 1962, p. 935). A palavra vem de specio, que indica “olhar”, “ver” e “avistar” (ibidem). Dessas indicações, pode-se pensar que espécies são tentativas de atribuições de idéias e sentidos para aspectos, formas, aparências e para o que está em campos de percepção. A própria palavra nos indica pelo menos duas oposições. A primeira é um oxímoro que contém em si seu próprio e seu oposto, ao conectar tipo e afinidade,”[rieferindo-se tanto ao implacavelmente ‘específico’ ou particular quanto a uma classe de indivíduos com as mesmas características (…).”3 (HARAWAY, 2012, p. 19, tradução minha). A segunda é uma operação cartesiana que reitera paradoxos de forma e conteúdo, rendendo o sentido à externalidade ou ao campo de percepção visual. Essa dicotomia é uma das bases do pensamento ocidental, junto de diversas outras contidas nos desenhos das discussões bioculturais e filosóficas que rondam disputas nos campos do agronegócio global, dos conflitos territoriais e de pautas étnico-raciais, degêneroe de deficiência, equeorganizam hierarquicamente valores de seres a partir da interrogação: que ou quem é humano? Quem deve morrer e como? A espécie nasce do solo do humanismo cishétero branco imperialista e capaz para regular e exterminar alteridades pela colonização, escravização, fixação dos binômios sexo-gênero e especismo – perpetuações do etnocídio, do racismo, do capacitismo, da cisheteronormatividade, “do extrativismo, do agronegócio, da poluição, das queimadas de florestas, da extinção de animais hospedeiros de microorganismos”.

Espécie é uma unidade organizacional complexa de biota viva animada ou não, composta de organismos com moléculas e átomos, e outros. As unidades organizacionais são agrupamentos, sendo espécies um deles, e, ainda que determinados grupos não possuam táxon ou possam ser especificados, são diagnosticados e classificados por propriedades, podendo ser compostos por vírus, bactérias, fungos, plantas, animais, protozoários, minerais. Cada conceito formulado no campo da diversidade biocultural é produzido por diferentes abordagens histórico-filosóficas, reflete abrangências e limitações específicas de operação e aplicabilidade, permite variantes avaliações ontocosmoepistemológicas da diferença e da riqueza espacial, postula realidades e irrealidades de inúmeras criações corporais, possibilita agrupamento de seres em uma infinidade de universos materiais e imateriais – morfológicos, genéticos, reprodutivos, ambientais, espaço-temporais, de fluxo. O conceito de espécies, ou melhor, os inúmeros conceitos existentes de espécies não são em nada diferentes: não são produções essencialistas, nem naturais ou imutáveis, são gerenciamentos de conservações, hierarquizações, definições, comparações, localizações, inventariações e especificidades de reprodução e variabilidades que separam ou unem seres. Cada definição contempla questões de sobrevivência, transformação e relacionabilidade. Produzir um conceito de espécie é então analisar um modo ou uma condição de existência, seja por presença de partes ou por articulações entre diferentes estruturas de organização, mais ou menos mutaveis.

A preposição e prevérbio trans vem do Latim trãns (FARIA, 1962, p. 1012). Como preposição significa além de”, “para o outro lado de”, “do outro lado de” e “por sobre”. Como prevérbio, além de ter o sentido de “além de”, aponta para o de “de um lado para o outro, inteiramente”. Como sinônimos de “de um lado para o outro” temos “por entre”, “através de”, “ao longo de”, “no decorrer de”,”durante”, dentre outros. Pode-se inferir daí que Transespécie é um movimento de transformação corporal além-espécie. Transespécie é igualmente uma prece para a sobrevivência.Transespécie é ser outres corpes por meio da transmetamorfose, transmutação ou transubstanciação corporal transespecífica, ou seja, ser para além da unidade organizacional da espécie, ser por entre espécies, ser através de espécies ou ser outras espécies.
Nesse sentido, Transespécie pode indicar um movimento por entre diversas espécies ao longo do tempo. Isso significa que Transespécie está para além da espécie, ou do que significa o limite das espécies, isto é, indica que a espécie em Transespécie não tem limite próprio. Transespécie questiona o limite específico, rompendo os limites do humano e do mais-que-humano, do vivo e do mais-que-vivo, do animado e do mais-que-animado, do sexo e do gênero, da natureza e da cultura, do corpo e da alma, do exterior e do interior, do visível e do invisível, da literalidade e da figuração. Transespécie interpela também as produções de sentido sobre percepções de seres, interroga abrangências e limitações de operação e aplicabilidade da espécie, exponencia avaliações ontocosmoepistemológicas da diferença e da riqueza espacial, fissura separabilidades entre realidades e irrealidades corporais, e indaga a própria possibilidade de agrupamento de seres em distintos universos materiaise imateriais-morfológicos, genéticos, reprodutivos, ambientais, espaço-temporais, de fluxo. Se o limite dos agrupamentos de diferenças é interrogado, também o são suas necessidades de conservações, hierarquizações, definições, comparações, localizações, inventariações, e especificidades de reprodução e variabilidades que separam ou unem seres. Contudo, se Transespécie não se desprega completamente da espécie, é que ainda diz de maneiras de sobrevivência e relacionabilidade a partir da diferenciação corporal.

Esses rompimentos que excedem as possibilidades humanas de produção de idéias de espécies permitem a fabulação de gêneros e mundos infinitos, da qual surgem aliens, divindades, criaturas mitológicas, monstros, feras, quimeras, espíritos, fantasmas, espectros ou entes invisíveis, figuras arqueológicas, híbridas, fantásticas, místicas, primordiais, celestes, submarinas, subterrâneas, e outros seres possíveis e impossíveis – ou mais-que-possíveis.A transespeciação, ou seja, o movimento de transformação corporal transespécie pode acontecer pela transformação material ou imaginária em outros seres; por hibridização; por identidades transespécie coletivamente ou individualmente performadas; por teias de transalteridades afetivas; por transplante transespécie ou xenotransplante; por engendramentos transformacionais da matérias; por iterabilidade ecológica coabitativa entre átomos, células, genomas e organismos multiespécies; pela capacidade de cruzamento genético transespecífico; pela troca ou transferência translateral de genes, células, átomos e matérias; por operações corporais como multiplicação, subtração, crescimento ou diminuição de partes; pela quimerização; pela montagem; por imagens e imaginários corporais; por metáforas – como as linguísticas -; pela transespeciação da percepção ou de orgãos e outras partes; por migração transcorporais de características, comportamentos ou estruturas, dentre outros.

Transespécie é, por fim, uma maneira de desarticular narrativas objetificadoras advindas de imagens metamórficas com as quais pessoas corpo e gênero variantes são associadas em miradas cisheteronormativas, brancas e capacitistas, ressignificando-as em novas políticas de desidentificação, que se aproveitem de afetos como ódio, revolta e deboche. Transespécies são produções de novas investigações corporais e ações de cura à cisheteronorma, engendramentos que valorizam a potência de criação de outros seres e mundos.

COMO CITAR O MUTHA?

O MUTHA é uma obra artística e um projeto científico autoral de Ian Guimarães Habib. Por esse motivo, o MUTHA deve ser citado junto de sua autoria, a partir da seguinte obra:

HABIB, Ian Guimarães. Corpos Transformacionais: a transformação corporal nas artes da cena. São Paulo: Ed. Hucitec, 2021.